Lapso Trivial

A autocrítica dos millenials

Acostumado a ser xingado pelas gera√ß√Ķes anteriores, o j√° n√£o t√£o jovem millenial agora se depara com uma nova gera√ß√£o, que aparentemente tamb√©m n√£o vai muito com a sua cara.

O termo Cringe pode soar estranho aos ouvidos dos nascidos entre 81 e 96, mas é nada além de um anglicismo para descrever a vergonha por outro, ou a boa e velha vergonha alheia. Sim, a próxima geração sente isso ao nos ver.

Voc√™, como eu, j√° deve ter partido do par√°grafo anterior em dire√ß√£o ao twitter para xingar muito esses jovens que ousam nos desacatar. Mimetizando com fidelidade a nossa rela√ß√£o com as gera√ß√Ķes anteriores. Belchior, para variar, tinha raz√£o: Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.

A verdade é que esse negócio de millenial não é um conceito universal, ele foi criado nos EUA (que julgam ser o centro do universo) e se aplica aos valores simbólicos com os quais cresceram pessoas nascidas entre 81 e 96 apenas no ocidente e olhe lá.

Aqui no Brasil ele se restringe √† classe m√©dia urbanizada com algum acesso a conte√ļdos midi√°ticos, bem como cultura pop e de consumo norte-americana. Sempre, √© claro com algum atraso em rela√ß√£o aos mercados prim√°rios, que a gente aprendeu na escola serem o ‚Äúprimeiro mundo‚ÄĚ. √Č o meu caso e da maior parte das pessoas do meu conv√≠vio.

As gera√ß√Ķes anteriores costumam dizer que somos mimados, elas t√™m uma certa raz√£o, mas n√£o pelos motivos corretos.

Nascemos em um momento no qual falava-se de ‚Äúfim da hist√≥ria‚ÄĚ, a guerra-fria tinha seus √ļltimos cap√≠tulos, o muro de Berlim caiu, a globaliza√ß√£o tornaria os diferentes povos mais pr√≥ximos. No Brasil, vivemos alguns anos de instabilidade econ√īmica, mas j√° em 1994 o plano real nos garantiu uma seguran√ßa monet√°ria sem precedentes (que o governo atual parece fazer quest√£o de p√īr a perder). Dezenas de milh√Ķes de brasileiros deixaram a pobreza nos anos 90 e 2000. O Brasil crescia e se tornava (s√≥ um pouco) mais justo, em meio ao boom das commodities, √† estabilidade econ√īmica e a programas sociais internos. Conhecemos um n√≠vel de empregabilidade sem precedentes. Se compararmos com o pa√≠s que nossos pais encontraram na juventude, fomos mesmo um pouco mimados.

Vimos surgir novos imp√©rios da tecnologia e comunica√ß√£o, com uma face muito mais agrad√°vel do que as grandes empresas de outrora. Trocamos com gosto 1984 por admir√°vel mundo novo e afundamos em redes sociais e mecanismos de busca que nos trataram, sem pensar duas vezes, como ratos de laborat√≥rio. Embora ainda n√£o soub√©ssemos disso. Acreditamos ser parte dessa revolu√ß√£o, qualquer um de n√≥s seria o pr√≥ximo Google ou Facebook, n√£o trabalhar√≠amos para pagar as refei√ß√Ķes di√°rias, mas para ter prop√≥sito na vida. Descobrir√≠amos tarde o buraco em que nos metemos, al√©m de mimados, fomos iludidos.

No mundo a onda positiva come√ßou a refluir em 2008, aqui no Brasil ainda levaria alguns anos at√© entrarmos em um fosso n√£o apenas econ√īmico, mas de civilidade, em que vivemos desde cerca de 2013 e do qual n√£o parecemos estar perto de sair, como nosso presidente faz quest√£o de demonstrar cada vez que abre sua boca. Preocupa√ß√£o ambiental virou slogan publicit√°rio e marca de regi√Ķes civilizadas que para manter essa imagem, terceirizam seu trabalho sujo em pa√≠ses pobres. Automa√ß√£o n√£o √© mais a promessa de um futuro superprodutivo e sem trabalhos repetitivos, mas a senten√ßa de que os poucos empregos que restaram, se tornar√£o ainda mais escassos, para alegria dos bilion√°rios e mis√©ria de... bem todo o resto.

N√≥s millenials aspir√°vamos autonomia, n√£o entend√≠amos como nossos pais trabalhavam por d√©cadas em uma mesma companhia. Nascemos para ser donos de nossos destinos, mas o caldo entornou, o jogo virou e no ‚Äúe agora jos√©?‚ÄĚ descobrimos que somos apenas precarizados, sem f√©rias, sem garantias e sem saber como ser√° o futuro pois, ao ver como algo garantido, nunca entendemos a import√Ęncia de construir um m√≠nimo de estabilidade. Belchior j√° sabia que viver√≠amos como nossos pais, o que ele n√£o esperava √© que muitos de n√≥s teriam de voltar a viver COM os pais.

A geração Z, nossos filhos, filhas, irmãos e irmãs mais novos, viu essa bomba estourar ainda jovem, o mundo deles não foi forjado no otimismo e se estão errados em nos chamar de Cringe é apenas em utilizar mais um anglicismo para dizer o óbvio. Afinal a gente, enquanto geração, provoca mesmo um pouco de vergonha alheia.

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