Lapso Trivial

O (nem tão) self-made man

Nós, cidadãos seculares do século XXI, frequentemente enxergamos mitologias e crenças como resquícios de um tempo já superado. Sem perceber que somos seguidores de um mito atual, o self-made man. O grande empreendedor que parte do absoluto nada para se tornar bem-sucedido – e naturalmente rico.

As trajetórias de figuras como Bill Gates ou Mark Zuckerberg são repletas de lendas modernas com lições de moral forçadas e geralmente vazias, sobre foco, perseverança entre outras palavras chaves para SEO de blogs de empreendedorismo ou youtubers de investimento.

Entretanto, a realidade, conforme exposto neste artigo do Daily Beast, tem o costume de ser mais prática e menos poética. E diferente do alardeado nas hagiografias motivacionais das portas de livrarias, nenhuma destas figuras partiu realmente do zero.

Elizabeth Holmes, já tida como a mais jovem a se tornar bilionária por conta própria, é filha de um ex-vice-presidente da companhia de energia Enron e de uma assessora parlamentar. Foi por meio de uma família abastada e influente que ela entrou em contato com os super ricos que eventualmente viria a fraudar.

Warren Buffet pode até ser um investidor audaz, mas, diferente do que nos fazem crer, recebeu um aporte familiar equivalente a pouco mais de cem mil dólares atuais em sua primeira empresa.

Já Bill Gates é filho de um famoso advogado corporativo e de uma empresária bem sucedida, responsável por apresentar sua startup à IBM, além de ter recebido de seu avô um fundo de um milhão de dólares, geralmente omitido de sua biografia.

E a lista vai longe. O Facebook recebeu um investimento de cem mil dólares do pai de Mark Zuckerberg. A família de Elon Musk fez fortuna na África do Sul ao explorar trabalhadores em minas de esmeralda durante o período do apartheid. Jeff Bezos começou a Amazon com duzentos e cinquenta mil dólares de seu pai.

Nada disso implica em dizer que estes indivíduos não possuam algum mérito, ou não sejam ambiciosos e inteligentes. Ou que os não herdeiros não possam encontrar objetivos na vida e correr atrás de seus sonhos. Mas lembrar que os casebres e barracos dos rincões do mundo estão repletos de indivíduos tão inteligentes e ambiciosos quanto, os quais nunca terão a chance de pisar em Harvard, ou mesmo na universidade mais próxima.

O poder – e o perigo – do mito, porém, vão além de sua interpretação literal. Mesmo nós, supostamente esclarecidos, a favor de taxar bilionários e capazes de entender o papel da herança na formação da riqueza, somos diariamente vítimas da pressão em ter de se provar e encontrar um meio de alcançar um sucesso mítico.

A ideia de que todos jogamos com as mesmas regras, já enraizada na cultura ocidental, esconde o fato de que esta é uma partida que já começa em uns quatro a zero para o time dos herdeiros. E isso em relação àqueles de nós que tiveram a chance de se alimentar de forma adequada e buscar sua formação, mesmo que com dificuldade. Há pessoas que entram no jogo sem chuteiras, meias ou uniforme e com meio time expulso. Indivíduos cuja única herança é o descaso social e sequelas da desnutrição.

Derrubar um mito não é tarefa simples, não a toa as monarquias europeias escolhidas por Deus perduraram por séculos. Mas ou desconstruímos esse tipo de ideal, ou continuamos em busca da inalcançável cenoura a frente do cavalo. Enquanto a forma mais eficaz para o sucesso financeiro continua a ser uma herança vultosa.

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