Lapso Trivial

O Centrão não é de centro

Antes de mais nada, vou repetir, o centrão não é um bloco de centro, é de direita.

Não sei quem inventou esse nome, mas o indivíduo – bem como toda a mídia que popularizou o termo – tem uma parcela razoável de culpa na incompetência que o nosso país tem em gerar uma terceira via politicamente viável.

Longe de mim entrar nessa ladainha de que há dois extremos no Brasil. O único campo extremista com representação na política brasileira é a extrema direita. Inclusive um campo ideológico bem próximo das origens do chamado centrão, que não por acaso serve de base ao governo atual.

Os primeiros registros do termo vêm da constituinte de 1988, para definir um grupo ideológico formado em torno das políticas de José Sarney, cuja agenda conservadora se opunha às propostas mais progressistas de Ulysses Guimarães para a constituição promulgada naquele ano.

Os partidos que formavam o central original – os quais também dão origem à maior parte do bloco atual – eram PFL, PL, PDS, PDC e PTB. Os três primeiros têm orientação conservadora e foram formados a partir da ARENA, partido cenográfico que servia apenas para dar um verniz republicano ao governo militar, enquanto os porões da ditadura torturavam e matavam homens, mulheres e crianças. Quanto aos dois últimos, PDC é um partido cristão conservador, já extinto, enquanto o PTB é, até hoje, uma sombra fisiológica do antigo partido de Getúlio Vargas.

É impossível ignorar que o centrão veio a aderir a governos de esquerda, participou do governo Lula – o próprio vice-presidente José Alencar pertencia ao PL – e fez parte do primeiro governo Dilma, embora no segundo mandato tenham sido a força motora do seu processo de destituição. Ainda assim, apesar de base desses governos, jamais defenderam políticas progressistas, salvo eventuais adesões a pautas com alto respaldo popular comprovado.

Também é verdade que eventualmente alguns políticos de partidos de esquerda tenham apoiado ou aderido ao bloco, principalmente os mais fisiológicos, como PDT e PSB. A despeito disso estes indivíduos ou pequenos grupos jamais o comandaram, ou conseguiram algo além de relevância regional através dele.

Para além de sua atuação conservadora e raízes cravadas em uma ditadura sanguinária de direita, as características pelas quais o centrão é mais conhecido são o fisiologismo e o clientelismo. O bloco é capaz de aderir a qualquer governo em troca de cargos e alianças regionais (sua maior força). Essas características, é verdade, não possuem lado político, mas tampouco significam que o centrão é um grupo moderado. Pelo contrário, permitem que o bloco não apenas sobreviva a qualquer governo, mas mantenha vivas pautas retrógradas e figuras ignóbeis do baixo clero, além de finalmente aderirem a um governo extremista, como atualmente fazem.

Jornalistas costumam nos lembrar, sempre com um ar intelectual, que o centrão não é de centro. Especialmente agora, quando tentam emplacar a história dos dois extremos. De pouco, quase nada, adianta essa conversa, se nas manchetes dos jornais – a parte mais lida das matérias – consta apenas o famigerado nome do bloco.

Para convencer uma população inteira de que o centrão não é de centro, ele precisa ganhar um novo nome. Os participantes do Foro de Teresina, da revista Piauí, cunharam o termo “Arenão” que remete à sua origem na ditadura, quando começaram a trocar apoio por cargos em estatais, poder regional e, é claro, muita grana. Além de lembrar, como já dito, que se trata de um grupo conservador, de direita.

Ainda assim me parece um termo intelectual demais, perfeito para o público da revista, mas com pouca aderência popular. Então, qual seria um novo nome ideal para o bloco?

Sinceramente, não sei. O que eu sei é que, enquanto “centro” for sinônimo de fisiologismo, clientelismo e corrupção, qualquer plataforma política moderada não corre o menor risco de dar certo.

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